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4 conexoes diretasAnshar aparece na cosmogonia suméria como divindade primordial e ressurge, milênios depois, nas narrativas de contato alienígena como o nome de uma raça subterrânea avançada. O que une esses dois mundos — e o que separa o mito da especulação moderna?
Anshar na Cosmogonia Suméria
No Enuma Elish, o poema babilônico da criação datado aproximadamente do século XVIII a.C. e preservado em tábuas cuneiformes encontradas em Nínive, Anshar aparece como uma das divindades primordiais. Filho de Lahmu e Lahamu — os primeiros seres gerados a partir da mistura das águas primordiais de Apsu e Tiamat — Anshar representa o horizonte celeste, a borda circular do céu. Seu nome, em acadiano, pode ser interpretado como ‘totalidade do céu’ ou ‘eixo do céu superior’.
Anshar e sua contraparte Kishar formam um par cosmológico: ela representa o horizonte terrestre, ele o horizonte celeste. Juntos, são os pais de Anu, o deus supremo do céu na tradição mesopotâmica. Essa genealogia divina não é apenas poética — ela reflete uma cosmologia elaborada sobre a estrutura do universo, onde camadas de realidade se empilham entre as profundezas aquosas e as alturas celestes.
É importante contextualizar: o Anshar mitológico sumério-babilônico não tem qualquer relação direta com raças subterrâneas ou extraterrestres. Essa associação é uma construção moderna, surgida principalmente na segunda metade do século XX, dentro de comunidades esotéricas e do movimento de contato alienígena.
O Enuma Elish e o Lugar de Anshar na Criação
O Enuma Elish, cujas sete tábuas foram descobertas nas ruínas da biblioteca de Assurbanipal em Nínive pelo arqueólogo Austen Henry Layard em 1849, é um dos textos cosmogônicos mais antigos preservados. Anshar aparece na primeira tábua como entidade geracional — um elo na cadeia que vai das águas primordiais até os deuses maiores como Marduk.
Estudiosos como Thorkild Jacobsen, em Treasures of Darkness (1976), analisaram o papel de Anshar como personificação de forças cósmicas abstratas, comum na tradição mesopotâmica. Não se trata de um deus com culto ativo, templos ou sacerdócios dedicados — Anshar é, antes, um conceito cosmológico personificado, representando o limite entre o que existe e o que está além.
A tradição acadêmica distingue claramente entre as divindades primordiais como Anshar — que representam princípios cosmológicos — e os deuses do panteão ativo sumério-acadiano, como Enlil, Enki e Inanna. Anshar pertence à geração anterior, ao substrato mítico da criação.
A Ressurgência Moderna: de Divindade a Raça Subterrânea
A transformação de Anshar de divindade cosmológica suméria para raça subterrânea avançada é um fenômeno do século XX, especificamente das décadas de 1980 e 1990, quando o movimento de ‘contato alienígena’ ou ‘experiências de abdução’ ganhou força nos Estados Unidos e Europa. Nesse contexto, Anshar passou a designar uma suposta civilização que habitaria o interior da Terra, tecnologicamente avançada e espiritualmente desenvolvida.
A figura central na popularização dessa narrativa moderna é Corey Goode, um americano que afirma ter sido recrutado ainda criança para um programa secreto chamado ‘Programa Espacial Secreto’ (Secret Space Program). Suas descrições, amplamente divulgadas em podcasts, séries online e na plataforma Gaia TV a partir de 2015, incluem encontros com seres chamados Anshar que habitariam câmaras profundas sob a superfície terrestre.
É fundamental deixar claro: as afirmações de Corey Goode não possuem qualquer evidência verificável. Nenhum documento, testemunha independente, imagem ou dado físico corrobora as descrições de bases subterrâneas habitadas por Anshar. A narrativa pertence ao gênero da mitologia contemporânea — culturalmente significativa como fenômeno social, mas sem base factual documentada.
A Narrativa de Contato: o Que os Relatos Dizem
Segundo os relatos de Goode e outros dentro do mesmo ecossistema narrativo, os Anshar seriam humanos do futuro que retornaram ao passado para influenciar o desenvolvimento da humanidade, habitando câmaras subterrâneas criadas há dezenas de milhares de anos. Seriam guardiões de conhecimento espiritual e tecnológico, com aparência humana mas com capacidades mentais e espirituais muito além das dos humanos modernos.
Dentro dessas narrativas, os Anshar aparecem em contraste com outras raças descritas como presentes no interior da Terra — algumas benevolentes, outras hostis. Esse esquema narrativo, com raças diversas, conflitos intergalácticos e humanos recrutados como intermediários, segue uma estrutura literária comum em ficção científica e em tradições esotéricas modernas como o Movimento do Novo Século.
Pesquisadores da cultura UFO e do fenômeno de abdução, como o professor David Halperin da University of North Carolina, analisam essas narrativas como expressões de necessidades psicológicas e espirituais profundas — a busca por contato com o sagrado, por mentores transcendentes e por um sentido de propósito cósmico — sem validar seu conteúdo literal.
Conexões com a Tradição da Terra Interior
A narrativa dos Anshar se entrelaça com a tradição mais ampla da Terra Interior ou Terra Oca — a crença de que a Terra abriga civilizações avançadas em seu interior. Essa tradição tem raízes diversas: a cosmologia nórdica com Midgard e Asgard, a Agartha tibetana descrita pelo ocultista Alexandre Saint-Yves d’Alveydre no século XIX, e o Shambhala budista.
A conexão entre Anshar e a Terra Interior não é original da mitologia suméria — é uma sobreposição moderna que toma o nome de uma divindade antiga e o insere em uma tradição esotérica ocidental. Esse processo de ressignificação de elementos de culturas antigas dentro de sistemas de crenças contemporâneos é comum e estudado por historiadores das religiões como Wouter Hanegraaff em New Age Religion and Western Culture (1996).
O que torna a narrativa Anshar particularmente interessante como objeto de estudo não é sua veracidade factual, mas sua estrutura: ela combina autoridade arqueológica emprestada (o nome sumério), tecnologia futurista, viagem no tempo, espiritualidade e política cósmica em um sistema coerente internamente — característica comum das grandes narrativas mitológicas de todas as épocas.
Anshar no Contexto do Programa Espacial Secreto
Nas narrativas do chamado Programa Espacial Secreto (SSP), os Anshar são apresentados como aliados da humanidade, em contraste com outras entidades descritas como exploradoras ou controladoras. Essa dualidade — guardiões benevolentes versus forças sombrias — é um arquétipo narrativo recorrente em tradições espirituais, desde o zoroastrismo até o gnosticismo.
A comunidade em torno dessas narrativas inclui ex-militares, pesquisadores independentes e entusiastas que interpretam os relatos como literalmente verdadeiros. Outros os tratam como metáforas espirituais ou como comunicações simbólicas de natureza psíquica. A diversidade de interpretações dentro da própria comunidade revela a plasticidade dessas narrativas.
Jornalistas investigativos como Keith Kloor, do jornal Discover, e pesquisadores céticos como Jason Colavito analisaram as afirmações do SSP e dos Anshar, documentando contradições internas, ausência de evidências e padrões comuns com fraudes de crença. Isso não invalida o fenômeno social, mas contextualiza sua relação com a realidade verificável.
Paralelos Mitológicos: Outras Tradições de Seres Subterrâneos
A ideia de seres avançados habitando o subterrâneo não é exclusiva da narrativa Anshar. Em tradições ameríndias, como a dos Hopi, existem relatos de mundos anteriores habitados sob a superfície. No hinduísmo, os Nagas são serpentes divinas que habitam o Patala, o mundo subterrâneo. Na mitologia japonesa, existe Ryūgū-jō, o Palácio do Dragão no fundo do mar.
Essas tradições compartilham uma estrutura: seres de sabedoria superior habitam reinos inacessíveis aos humanos comuns, e o contato com eles transforma quem tem esse privilégio. A especificidade cultural varia enormemente, mas o padrão arquetípico é universal. Carl Jung identificou esse padrão como expressão do inconsciente coletivo — o submundo como metáfora da psique profunda.
A narrativa dos Anshar modernos pode ser compreendida como uma versão contemporânea desse arquétipo universal, revestida com a linguagem e a estética do século XXI: tecnologia espacial, programas governamentais secretos e experiências de abdução substituem as florestas encantadas e os portais mágicos das tradições antigas.
O Papel das Plataformas de Mídia na Difusão da Narrativa
A expansão da narrativa Anshar está diretamente ligada ao ecossistema de mídia alternativa do século XXI. A plataforma Gaia TV, fundada em 2009 e especializada em conteúdo de bem-estar e consciência expandida, tornou-se o principal veículo de difusão das afirmações de Corey Goode através da série Cosmic Disclosure, que chegou a ter centenas de episódios.
Podcasts como o de David Wilcock, YouTube channels dedicados ao tema e comunidades no Reddit e em fóruns especializados criaram um ecossistema de reforço mútuo, onde as narrativas se expandem e se aprofundam sem passar pelo escrutínio jornalístico ou científico. Esse fenômeno é estudado por pesquisadores da desinformação como uma forma de comunidade epistêmica alternativa.
É relevante notar que a própria comunidade interna ao movimento SSP passou por divisões significativas. Em 2017, o pesquisador Dr. Michael Salla e Corey Goode se distanciaram de outros colaboradores após disputas sobre a veracidade e propriedade das narrativas — um padrão comum em movimentos baseados em revelações pessoais não verificáveis.
Leitura Crítica: Separando Camadas
Para abordar Anshar com honestidade intelectual, é necessário distinguir pelo menos três camadas distintas. A primeira é o Anshar histórico: uma divindade da cosmogonia suméria-babilônica, documentada em textos arqueológicos verificáveis, sem qualquer associação com seres subterrâneos ou extraterrestres. A segunda é o Anshar esotérico: uma apropriação do nome para designar uma suposta raça da Terra Interior dentro de tradições ocultistas do século XX.
A terceira camada é o Anshar das narrativas de contato contemporâneas, especificamente o movimento SSP: um sistema de crenças elaborado, sem evidências verificáveis, que combina elementos de ficção científica, espiritualidade New Age e teorias de conspiração. Confundir essas três camadas é um erro analítico comum tanto entre entusiastas quanto entre céticos.
O interesse genuíno em torno de Anshar revela algo real e importante: a necessidade humana de narrativas de contato com o transcendente, de guardiões sábios, de conhecimento oculto e de pertencimento a uma história maior. Esse impulso é universal e merece ser tomado a sério como dado anthropológico — independentemente da veracidade literal das narrativas que o expressam.
Anshar e o AwakenMap
No AwakenMap, Anshar aparece como um nó dentro do cluster da Terra Interior e das narrativas de civilizações ocultas. Sua presença no mapa não implica endosso das afirmações do SSP — mas reconhece que esse conjunto de narrativas é culturalmente significativo e conectado a outros temas importantes: Agartha, Inner Earth Civilization, Ancient Builder Race e os debates sobre acesso a conhecimento suprimido.
As conexões no mapa revelam a estrutura dessa rede de crenças: Anshar conecta-se a Terra Interior pela cosmologia compartilhada; a Ancient Builder Race pela ideia de civilizações avançadas pré-históricas; a Operação Highjump pela especulação sobre o que governos sabem e não revelam; e às tradições de Agartha e Shambhala pelo tema dos guardiões espirituais subterrâneos.
Explorar Anshar no AwakenMap é uma oportunidade de entender como narrativas antigas são ressignificadas em contextos modernos, como sistemas de crenças se constroem e se difundem, e o que esses fenômenos revelam sobre necessidades humanas profundas — de transcendência, de contato e de sentido.
O Que Sabemos e o Que Permanece em Aberto
O que é verificável: Anshar é um nome de origem suméria-acadiana que designa uma divindade primordial no Enuma Elish. Os textos que o descrevem foram escavados em sítios arqueológicos no atual Iraque e Síria, datados e traduzidos por assiriologistas em universidades ao redor do mundo. Essa é uma realidade histórica sólida.
O que é especulação sem evidência: a existência de uma raça chamada Anshar habitando o interior da Terra, as afirmações de Corey Goode sobre encontros com essa raça, e qualquer programa governamental secreto relacionado. Nenhuma dessas afirmações possui evidência verificável por métodos independentes.
O que permanece genuinamente em aberto: a extensão do que os governos sabem sobre fenômenos aéreos não identificados (UAPs), a possibilidade de formas de vida em ambientes geológicos extremos, e o significado psicológico e espiritual das experiências de contato relatadas por milhares de pessoas ao redor do mundo. Essas questões merecem investigação séria e não se beneficiam de afirmações extraordinárias sem evidências correspondentes.
Leitura crítica
Este tema deve ser lido em camadas: fatos documentados, hipótese histórica, narrativa espiritual, cultura UFO e especulação. O objetivo aqui é ampliar a investigação sem transformar ausência de prova em certeza.
Referências e pontos de partida
- Enuma Elish — Tradução e análise (British Museum)
- Jacobsen, Thorkild — Treasures of Darkness: A History of Mesopotamian Religion (Yale University Press, 1976)
- Hanegraaff, Wouter — New Age Religion and Western Culture (SUNY Press, 1998)
- Halperin, David — Intimate Alien: The Hidden Story of the UFO (Stanford University Press, 2020)
- Colavito, Jason — análise crítica das narrativas SSP
- Ancient History Encyclopedia — Enuma Elish
Perguntas frequentes
Anshar é um ser real ou apenas mitologia?
Anshar é uma divindade documentada da cosmogonia suméria-babilônica, presente no Enuma Elish. Como divindade antiga, é real no sentido histórico e cultural. Como raça subterrânea avançada — a narrativa moderna associada ao movimento SSP — não há evidência verificável de sua existência física.
O que é o Programa Espacial Secreto e qual é a relação com Anshar?
O Programa Espacial Secreto (SSP) é uma série de afirmações feitas principalmente por Corey Goode sobre um programa governamental oculto com acesso a tecnologia extraterrestre e contatos com raças alienígenas, incluindo os Anshar. Essas afirmações não possuem evidência verificável e são rejeitadas pela comunidade científica e pelo jornalismo investigativo.
Existe alguma base arqueológica para as narrativas modernas sobre Anshar?
A base arqueológica existe apenas para o Anshar histórico — a divindade suméria documentada em tábuas cuneiformes. As narrativas modernas sobre Anshar como raça subterrânea tomaram emprestado o nome, mas não têm qualquer continuidade ou base nos textos arqueológicos originais.
Por que essas narrativas atraem tantas pessoas?
Narrativas como a dos Anshar oferecem o que muitas tradições religiosas oferecem: um sentido de contato com seres superiores, de pertencimento a uma história maior, de conhecimento oculto acessível a poucos. Em um mundo secularizado, essas narrativas preenchem necessidades espirituais e psicológicas genuínas, mesmo sem base factual verificável.
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